Alfredo da Rocha Viana Filho, “Pixinguinha”

Pixinguinha

Hoje lembramos o genial maestro, instrumentista, arranjador e compositor Alfredo da Rocha Viana Filho (nasceu a 23 de abril de 1898, no Rio de Janeiro – morreu em 17 de fevereiro de 1973 aos 75 anos. 

Recebeu o mesmo nome do pai, mas a avó, quase centenária, trazida da África para o cativeiro, deu para chamá-lo de Pizidim. O apelido pegou. Já crescido Alfredinho indagou a avó o significado de Pizidim e ela explicou:

– Isso é nome africano, meu neto; pizin quer dizer bom e dim menino. Você é um bom menino.

Porém com passar do tempo apareceram as inevitáveis corruptelas. Passaram a chamar Alfredo de Bexiguinha, quando contraiu bexiga em uma epidemia no Rio e, finalmente, de Pixinguinha.

Alfredo da Rocha Viana Filho, ou Pixinguinha, foi autor de dezenas de valsas, sambas, choros e polcas. Compôs orquestrações para cinema, teatro e circo, além de arranjos para intérpretes famosos, entre os quais Carmen Miranda, Francisco Alves e Mário Reis.Considerado o maior flautista brasileiro de todos os tempos e mestre do chorinho, Pixinguinha desde pequeno dedicou-se à música. Aprendeu a tocar cavaquinho com os irmãos Leo e Henrique e aos 11 anos já dominava o instrumento. Seu pai, um excelente flautista, também foi mais um dos mestres que Pixinguinha teve em seu ambiente familiar

Esse ambiente musical que o envolveu durante a infância aparece em um depoimento feito ao MIS (Museu da Imagem e do Som), no qual ele afirma: “às vezes a turma de músicos tocava até tarde e eu era mandado para a cama. Mas não dormia. Ficava prestando atenção e no dia seguinte procurava tirar em minha flauta de lata os chorinhos que tinha escutado até de madrugada”. É nessa época que Pixinguinha compõe sua primeira música, Lata de Leite, na qual retrata musicalmente a brincadeira de crianças que bebiam o leite que era deixado no portão da casa dos outros.

Com 14 anos, Pixinguinha tocou no Cine Teatro Rio Branco e começou a trabalhar na Casa Chope Concha, na Lapa. Depois, sempre levado à Lapa pelo irmão China ou por algum músico de confiança de seu pai, o jovem Pixinguinha começou a tocar nos mais famosos cabarés do Rio como O Ponto, ABC, O Castelo, e daí para O Cine Teatro Rio Branco, onde entrou na orquestra, com a fama de grande flautista.

Ainda adolescente, Pixinguinha já possuia um currículo considerável e acumulava uma vasta experiência como músico de cassino, cabaré, cine-teatro, casa de chope, diretor de harmonia de ranchos e músico profissional.

Nessa época, Alfredinho empinava papagaio, gravava discos e via seu nome aparecer na imprensa de diversas maneiras. Foi Pexeguim, Bexiguinha, Peixiquinha, Pechinguinha, Pizindim etc. A primeira gravação do garoto Pixinguinha foi o chorinho São João Debaido d’Água, de Irineu de Almeida.

Como todo grande criador, Pixinguinha enfrentou algumas polêmicas durante sua longa carreira. A primeira delas foi com Antonio Maria Passos, Flautista da orquestra do Teatro Rio Branco, que, ao faltar nos ensaios da orquestra, foi substituí por um garoto de 15 anos chamado Bexiguinha, ou Pixinguinha, vindo a perder o emprego, logo em seguida, para o tal garoto.

Uma outra polêmica em que Pixinguinha esteve envolvido nasceu em uma noite de 1916, na casa da Tia Ciata, quando João da Mata, Sinhô, Hilário Jovino, João da Baiana, Donga e seu irmão China, improvisaram nos seus instrumentos. Ali nasceu o samba Pelo Telefone, que Donga registrou como sendo música de sua autoria, unicamente. O grupo dividiu-se com isso, alguns defendendo Donga, outros atacando, porém, tudo através da música. O maior sucesso do carnaval de 1919, Já te Digo, de Pixinguinha e China, era, nada mais nada menos, que uma agressiva e engraçada forma de ridicularizar a figura de Sinhô, que também reclamava para si a autoria da música Pelo Telefone.

A história de Pixinguinha também conta com conjuntos musicais que marcaram época, como os Oito Batutas (1919), grupo formado por ele (flauta), Donga (violão), Nelson Alves (cavaquinho), China (canto, violão e piano), Raul Palmieri (violão), José Alves (bandolim e ganzá) e Luis de Oliveira (bandola e reco-reco), tocando um repertório que incluía maxixes, canções sertanejas, batuques, cateretês e choros.

Foi em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, em São Paulo, que os Oito Batutas ganharam o mundo. Em janeiro de 22, eles foram para Europa como o primeiro regional brasileiro a sair do país para uma excursão. Foram para ficar 30 dias e ficaram seis meses. Tocaram só música brasileira para os nobres europeus. Só voltaram por saudades do Brasil e para não perder as comemorações do Centenário da Independência.

O regresso da Europa, mesmo depois de tanto sucesso, também gerou algumas polêmicas por aqui, pois Pixinguinha, ao chegar ao Brasil, decidiu alterar a formação dos Oito Batutas, introduzindo instrumentação nova e ampliando o número de músicos para dez ou doze componentes. Isso foi o suficiente para os puristas de plantão acusá-lo de querer copiar as jazz bands americanas, o que era, no mínimo, uma demonstração de total desinformação musical, pois sax e pistão já haviam sido utlizados no choro por Anacleto de Medeiros, que morreu em 1907.

Apesar do sucesso, aqui e no exterior, os Batutas ganharam pouquíssimo dinheiro. Uma mostra disso foi a excursão que fizeram à Argentina, na qual foram enganados por um empresário que acabou fugindo com tudo o que foi ganho na excursão. Os Batutas acabaram por empenhar os instrumentos e foram obrigados a ficar um bom tempo vadiando pelas ruas de Buenos Aires até arranjarem uma forma de arrecadar dinheiro suficiente para voltar para o Brasil.

Foi também na década 20, durante algumas apresentações em São Paulo, que Pixinguinha conheceu Mário de Andrade, uma das maiores personalidades da Semana de Arte de 22. Mário queria conversar com alguém que lhe contasse coisas da macumba, de maneira que pudesse sintetizar a cerimônia colocando as diversas formas coimo se apresentava no país. O resultado desse encontro está no sétimo capítulo de Macunaíma, onde “negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão” do texto, não é outro senão Pixinguinha.

Entre outros grupos famosos dos quais Pixinguinha fez parte também estão a Orquestra Típica Pixinguinha-Donga (1928) e o Grupo da Velha Guarda, este organizado em 1932 e reorganizado em 1954. Sua obra está gravada em dezenas de discos. Sua composição de maior sucesso é “Carinhoso“, de 1924, cuja letra foi feita por Braguinha, em 1937. É autor ainda da trilha sonora do filme Sol Sobre a Lama (1962), em parceria com Vinícius de Moraes.

Bom de música, de amigos e de copo, Pixinguinha foi uma das figuras mais representativas da cultura e da cidade do Rio de Janeiro. Boêmio, tinha uma mesa no Bar Gouveia, uma uisqueria, na Travessa do Ouvidor, na qual seu nome foi gravado em ouro, marcando a mesa reservada para seus uísques.

Pixinguinha considerava-se um boêmio caseiro -daqueles que vão da casa ao bar e do bar à casa- e era frequentador assíduo de alguns bares determinados. Sua boêmia ficava ainda mais brilhante e suntuosa em suas festas de aniversário -verdadeiras comemorações a ele e à música popular. Nestas festas não podiam faltar duas coisas: o uísque e uma frase que Pixinguinha sempre dizia: “minha vida foi sempre bem vivida na boêmia”.

Dentro da nossa música Pixinguinha é um mundo. Ritmos músicais como o samba não existiriam como são hoje se não houvesse a figura de Pixiguinha em sua história. Mário de Andrade dizia que Pixinguinha surgiu quando “a música popular tornou-se violentamente a criação mais forte e a caracterização mais bela da nossa raça, nos últimos dias do império e primeiros da República”.

Quando Pixinguinha morreu, a 17 de fevereiro de 1973, aos 75 anos de idade, encerrou-se uma das mais belas épocas da música popular do Brasil.

Renato Roschel
do Banco de Dados